MINGAU DAS ALMAS: ALIMENTO DE CURA E DEVOÇÃO.
- Luiz de Miranda
- há 3 horas
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É sempre importante lembrar que na Umbanda cada ritual com suas oferendas, rezas, cantos e ingredientes têm uma história pra contar. É a memória viva de nossos ancestrais e seus grandes feitos e descobertas. Com o mingau das Almas não é diferente: ele evoca lendas que envolvem cura e proteção: para muitos de nossos antepassados, quando a criança adoentada acordava com uma baba seca no canto da boca, era sinal de que as Almas Santas prepararam um mingau no Céu e trouxeram para dar a criança enquanto dormia e assim curá-la mais rapidamente. Ou ainda, quando a criança não comia direito a intenção era alimentá-la para que não morresse de fome.
Feito originalmente com farinha de acaçá e hoje em dia com amido de milho ou farinha de arroz e água, o mingau das Almas carrega toda uma história de superação, resistência, cura e acolhimento. E ainda funciona como um elo de ligação forte com nossa ancestralidade.
Ao oferecer o Mingau das Almas aos nossos Pretos e Pretas-Velhas estamos enviando um pedido ou um agradecimento, pois, essa comida ritualística traz em si a simplicidade, leveza e força que precisamos para seguir firmes e confiantes.
O mingau tem origem indígena, mais especificamente tupi-guarani e tradicionalmente era preparado com farinha de mandioca e caldos de carne e peixe (pirão). Os Tupinambás em seus rituais antropofágicos comiam esse mingau juntamente com as víceras de inimigos capturados, acreditando que desta forma tomavam pra si as forças dos derrotados. É importante saber que isso se dava dentro de um contexto cultural onde a finalidade do ritual não era pra matar a fome, mas sim, adquirir as qualidades e conhecimentos dos guerreiros derrotados.
Já em relação ao Mingau das Almas, acredita-se que negros e negras fugindo de seus algozes em busca dos quilombos, se deparavam com tribos indígenas que os acolhiam, e , percebendo a fragilidade de seus corpos serviam mingau de mandioca com caldo de peixe e carne de caça. Logo que recuperados seguiam rumo aos quilombos e lá passaram a ensinar essa iguaria, que agora, feito com o amido da mandioca e do milho branco (acaçá) com carne de caça e peixes, passa a fazer parte do cardápio do Quilombo.
O Mingau das Almas é uma comida ritualística, logo, ela tem como finalidade reforçar os laços entre os filhos de santo e seus ancestrais, criando um ambiente de proteção e cura.
Alguns Terreiros de Umbanda servem o Mingau das Almas em dia de finados, demonstrando sua gratidão a todos aqueles que já passaram por ali e deixaram seus legados.
Todos sabemos da importância do mingau em nossas vidas desde sempre: as papinhas são exemplo disso. Depois seguimos aprendendo que minagu faz bem e é forte. Provavelmente a geração de hoje, com raras exceções, não sabe preparar um mingau de maizena, aveia, farinha de acaçá, de arroz... tudo foi substituído pela comida industrializada que traz em si única e exclusivamente o lucro financeiro, com a justificativa de se economizar tempo. Pois é, e é do tempo que estamos falando: o tempo que foi, mas que continua sendo exemplo de força e superação. Ao preparar o Mingau das Almas, nunca é demais dizer: estamos nos fortalecendo e aprendendo com àqueles que são a história do nosso país e da nossa religiosidade.
Adorei as Almas!
Receita:
1/2 litro de água
2 colheres rasas de sopa de amido de milho ou farinha de acaçá
Misturar em uma panela, colocar em fogo brando e ir mexendo até engrossas. Nesse tempo vá fazendo seus pedidos ou agradecimento e cante um ponto aos Pretos-velhos.
Deixe esfriar, coloque num prato branco, enfeite com canela em pau e regue com um pouco de mel.





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