MÃE CACILDA DE ASSIS O Reinado de Seu 7 da Lira
- Luiz de Miranda
- 15 de mar. de 2024
- 6 min de leitura
Nascida em Valença (RJ), no dia 15 de março de 1917, Cacilda de Assis viria a ser uma das Yalorixás mais famosas da Umbanda no Brasil. Aos 7 anos de idade, Cacilda de Assis teve a primeira manifestação de sua mediunidade, quando em seu aniversário sofreu um desmaio e entrou em coma. Orientados por parentes para levá-la a uma benzedeira, seus pais repudiaram tal sugestão. Mas, depois de muita insistência e vendo que a menina não reagia aos impulsos, resolveram liberar a presença da benzedeira, que de imediato percebeu tratar-se de uma possessão espiritual. Foi então, que resolveram encaminhar a menina para a Federação Espírita Brasileira, a fim de iniciar seu desenvolvimento mediúnico.
Mas, é no Terreiro de Pai Benedito do Congo, em Valença, que aos 15 anos de idade, a jovem Cacilda de Assis faz sua camarinha (ritual de recolhimento para se preparar um médium de Umbanda),para Xangô e Iansã, de quem era filha, e em seguida segue fazendo os Assentamentos de suas Entidades, que entre elas, está aquele que lhe daria fama e prestígio por décadas: Exu 7 da Lira. Tal era sua dedicação e força espiritual, que Cacilda, agora Mãe Cacilda, assume a liderança do Terreiro, onde permanece até a década de 50, quando então sua Pombagira Dona Audara Maria, entrega nas mãos do filho carnal de Dona Cacilda o número da loteria, que deveria ser apostado de imediato, e o dinheiro ganho teria a finalidade de comprar um terreno e construir seu próprio Terreiro. O número dá inteiro no primeiro prêmio da Loteria Federal.
Em 1958, é inaugurada a Tenda Espírita Filhos da Cabocla Jurema, no subúrbio do Rio de Janeiro, no bairro de Cavalcanti.
Em pouco tempo o espaço da Tenda se tornou pequeno demais para suportar o grande número de pessoas que ia em busca das curas do Exu 7 da Lira. Era urgente a necessidade de um espaço maior.
O Terreiro então passa para o bairro Santíssimo, lugar muito distante da cidade e de pouquíssimos moradores. Mas, bastou a chegada de Mãe Cacilda e de Seu 7 da Lira, para acontecer as grandes mudanças, trazendo uma nova realidade para o até então, esquecido bairro de Santíssimo. Tudo prosperou absurdamente.
Atabaques, cavaquinhos, pandeiros, chocalhos e tantos outros instrumentos formavam sua banda. Sim, Seu 7 da Lira iniciava seus atendimentos diariamente sob canções de todos os estilos, desde seus pontos cantados, sambas, marchas de carnaval, choro, bolero, valsas, até Niccoló Paganini o violinista italiano do século XIX e Ave Maria de Gonoud. Era um verdadeiro show de fé e grandes curas. A multidão ordeira aguardava a chegada do Exu, vaidoso, apresentava-se sempre muito bem vestido, ostentando roupas muito bem bordadas em lantejoulas e paetês, com sua capa que pesava em torno de sete quilos. Saudava a multidão de aproximadamente 20 mil pessoas, jogando sua bebida, a marafo, sobre todos os presentes. O Terreiro era frequentado por jornalistas, artistas, comerciantes, médicos, políticos, jogadores de futebol, pobres, ricos...
Sua fama de milagreiro espalha-se pela cidade e pelo país, fazendo de Mãe Cacilda, a primeira pessoa a aparecer na capa da Revista Cruzeiro, muito famosa na época, com as vestimentas de Seu 7 da Lira. Em seguida é convidada pela poderosa gravadora ODEON, para gravar um LP com os pontos cantados no seu Terreiro. Com isso, ganha um programa na Rádio Metropolitana do Rio de Janeiro, onde começa a difundir os ensinamentos sobre a Umbanda. No carnaval de 1971, forma o Bloco da Lira, comandado pela presença do próprio Exu devidamente paramentado, que inclusive ganha o prêmio de destaque no carnaval e fica em terceiro lugar com o samba composto pela Yalorixá, Podes Voltar; ficando à frente do Cordão da Bola Preta, que ficou em quarto lugar. Um adesivo para carros feito com seu nome e cores, vira uma febre na cidade.
O Reinado de Seu 7 da Lira
Era o apogeu daquele que mais tarde experimentaria a ira da ditadura militar, ataques da CNBB, sendo inclusive considerado um mal para Umbanda, pela União Brasileira de Estudos e Preservação dos Cultos Africanos, na pessoa do seu presidente Manoel Queiroga.
O apresentador Flávio Cavalcanti, tem um programa na TV Tupi, que disputava audiência com Chacrinha, na TV Globo. Flávio então se adianta, e marca com Seu 7 da Lira, sua ida ao seu programa no dia 29/08/1971, o que contraria Mae Cacilda que de tudo faz para cancelar essa visita. No entanto, Seu 7 da Lira diz que tem a missão de levar luz e amor para todos, e que o programa de televisão é um excelente meio para esse fim.
“Chegando no local, o EXÚ SETE DA LIRA não se fez de rogado e com sua capa preta, cachaça na mão e charuto adentra triunfante nos estúdios sem dar tempo de nenhuma apresentação. Seus filhos de santo vão atrás levando atabaques e o programa vira uma catarse, pessoas que possuíam alguma mediunidade presentes no local, começam a passar mal, a linha telefônica do país congestionou e em frente as câmeras ele passa a sua mensagem de amor e paz. No mesmo momento, a produção do Programa do Chacrinha liga para as pessoas mais próximas criticando a preferência, pois naquele momento o programa de Flávio batia todos os recordes de audiência da televisão da época. Seu sete não pensa duas vezes e manda responder que também passaria lá para dar um abraço no outro apresentador e assim o fez. Em 20 minutos, o Exú já estava adentrando os estúdios da TV GLOBO, no Jardim Botânico, e também entra triunfantemente no palco. E a história se repete, várias chacretes passam mal, pessoas no palco também incorporam e ele vai direto abraçar Chacrinha e lhe dar um recado no pé do ouvido: “ … – Fique firme seu filho não irá morrer, mas viverá numa cadeira de rodas para sempre …”. O filho do apresentador estava internado no hospital naquela semana após um acidente, o apresentador desaba em choros. A entidade também manda sua mensagem de paz nas câmeras, joga cachaça no palco e vai embora. Todas as pessoas voltam ao normal e o Brasil passa a semana inteira comentando sobre o que acabaram de assistir.”
“No dia 1º de setembro de 1971, o tabloide paulistano Notícias Populares, publicou uma matéria onde atribuía à apresentação da ialorixá a morte do jovem Everaldo Ferreira da Silva, de 31 anos, que acabou por cometer suicídio no dia 29 de agosto, às 13h30, em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio.[2] Apesar disso, ficou constatado que o jovem não estava assistindo ao programa do Chacrinha, visto que faleceu a tarde, horário em que o Programa Silvio Santos estava no ar pela Rede Globo Tampouco teria assistido ao Programa Flávio Cavalcanti, que era exibido mais tarde que o programa de Chacrinha. No horário em que os programas de Chacrinha e Cavalcanti eram exibidos, o corpo do jovem já estava no Cemitério Municipal de São Gonçalo aguardando a necrópsia. Mesmo assim, a médium foi responsabilizada pelo falecimento do jovem”
Ataques da CNBB e de alas da Umbanda
“Na sexta-feira, dia 3 de setembro, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) fez seu pronunciamento através de seu secretário-geral, o bispo Dom Ivo Lorscheiter, que declarou à imprensa que Mãe Cacilda e sua entidade “Seu Sete” haviam prejudicado a imagem do Brasil no exterior.”
“Outras críticas foram feitas pelo cardeal Dom Eugênio Sales em seu programa radiofônico, A Voz do Pastor, alertando os ouvintes sobre o “perigo das sub-religiões”.Vários periódicos católicos publicaram artigos contra a presença da Umbanda da televisão, coisa que não havia acontecido antes.”
“A polêmica chegou ao seu ápice quando Manoel Queiroga, então presidente da União Brasileira de Estudos e Preservação dos Cultos Africanos, fora convidado para participar do Programa Silvio Santos, na Rede Globo.[6] Na ocasião, representando a entidade, se posicionou contra a Mãe Cacilda dizendo que as religiões afro-brasileiras estariam sendo conspiradas por mistificadores que encontram na fé e na desgraça dos outros uma forma de enriquecerem rapidamente. Os devotos de Seu Sete entenderam o pronunciamento como uma indireta à mãe-de-santo passando a atacar Queiroga em suas sessões.”
Censura federal
“Por conta de toda a polêmica ocasionada pela aparição da médium nos programas de Abelardo Barbosa, o Chacrinha, e Flávio Cavalcanti, bem como no pronunciamento do presidente da entidade umbandista no programa de Silvio Santos, a Censura Federal determinou a suspensão, por oito dias, dos programas de Chacrinha e Flávio Cavalcanti. Walter Clark, diretor-geral da Globo, e Almeida Castro, diretor-artístico da Tupi, se reuniram em 2 de setembro temendo proibições piores.[2] O resultado desse encontro foi a assinatura de um protocolo destinado a eliminar as atrações “de mal gosto” das grades de ambas as emissoras.”
Últimos anos e morte
“Mãe Cacilda trabalhou publicamente com a entidade Seu Sete da Lira até o ano de 2002, quando encerrou as suas atividades. Com o passar dos anos e o avançar da idade, Mãe Cacilda restringiu as consultas mediúnicas apenas aos seus familiares. Mãe Cacilda faleceu no dia 21 de abril de 2009, aos 92 anos, de causas naturais.”



