CALUNDU: A UMBANDA AFRICANA
- Luiz de Miranda
- há 22 minutos
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Desde o mito fundador da Umbanda, tendo como personagem o médium Zélio Fernandino de Moraes, muito se questiona sobre ser ou não, a Umbanda, uma religião de matriz africana. Um questionamento que faz muito sentido se observarmos o comportamento ritualístico na Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade: forte influência do espiritismo kardecista, não uso de atabaques, de imolação animal, de bebida alcóolica e de outros utensílios e alimentos comumente usados por religiões de origem africana.
No entanto, é preciso esclarecer que muito antes de Zélio "fundar" a Umbanda, já haviam manifestações de espíritos como Caboclos, Pretos-Velhos, Exus e Pombogiras. E que, obviamente, não recebiam o nome de Umbanda. O que talvez tenha feito Zélio de uma forma colonialista e embranquecida, foi dar um nome à uma religião que agradasse aos interesses das classes dominantes. Afinal, coisas de pretos nunca foram aceitas por essa elite brasileira. E deu certo, Terreiros que tivessem em suas fachadas uma placa que constasse escrito "Tenda Espírita...", não eram importunados pelas autoridades policiais. Aqui, é importante deixar claro, que mesmo sob forte pressão e influência da elite brasileira, devemos sim, respeito ao Sr. Zélio Fernandino de Moraes, por seus seus grandes feitos na Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade. Segue o link para quem se interessar em conhecer essa Casa de espiritismo de Umbanda, que atualmente está localizada na cidade de Cachoeiras de Macacu: https://www.tensp.org/contato
No entanto, séculos antes de todo esse mito fundador, escravizados trazidos de Angola, Congo e Moçambique entre os séculos XVII e XVIII já realizavam seus cultos e ritos fiéis às suas origens e raízes africanas. Esse culto era chamado de Calundu: uma manifestação religiosa praticada nas regiões do Nordeste, mais precisamente na Bahia, e no Sudeste, em Minas Gerais. Há quem já deve ter ouvido de seus parentes mais antigos, a frase: "- tá de calundu?". Essa expressão referia-se à pessoa que estava mal-humorada, ou aparentando estar chateada. No entanto, muitos desconhecem a origem banto dessa palavra que faz parte das antingas linguas centro-africanas quimbundo e quicongo, sendo considerada uma herança dos Espíritos que pertencem a uma lon gínqua ancestralidade. Grupos de escravizados muitas vezes se reuniam em residências de pessoas que buscavam curas de doenças, questões judiciais, falar com um parente já desencarnado, mulheres que buscavam amansar seus maridos, encontrar objetos ou pessoas que desapareceram, conseguir um amor, prosperidade financeira...
Mãe Catharina, uma escravizada vinda de Angola, ficou muito conhecida pelos seus feitos através de suas manifestações espirituais. Da mesma forma, uma preta chamada Magdalena , essa fazia questão de dançar o calundu em praça pública, levantando a ira dos governantes e da elite da época, que acusavam essas danças de diabólicas. Um Padre chamado Francisco Lima, pelos idos de 1702, dizia que o diabo se apoderava dessas mulheres com fúria e visagens fora do natural daqueles que as dançam. E quando acabavam as tais danças, deixavam as mulheres que lhes serviam, por muito tempo desacordadas, sem voz, como se estivessem mortas. Tudo isso acontecia em vários cidades do Estado da Bahia. Há um registro que no Natal de 1707, na Freguesia de Itapagibe, negros e negras se reuniam na casa de Lucrécia Vieira, mulher forra que também realizava grandes curas em troca de alguns réis. Todas essas mulheres e tantas outras adeptas do Calundu, foram denunciadas ao Santo Oficio, tendo um fim que todos nós já sabemos...
O Calundu era um culto praticado por pessoas negras portadoras de saberes e grande capacidade de comunicar-se com Espíritos ancestrais, que incorporavam através de danças sensuais, com o ato da umbigada, chamadas Lundus.
O Calundu sobreviveu até os dias de hoje, não mais como um culto. Mas, como fundamento ancestral das religiões afro-brasileiras.
Não podemos fechar essa publicação sem saudar a importante figura de Luzia Pinta, como uma das grandes precursoras da Umbanda no Brasil. Sobre ela, temos uma publicação neste site : Luzia Pinta - A Avó da Umbanda.




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