top of page

CALUNDU: A UMBANDA AFRICANA

  • Foto do escritor: Luiz de Miranda
    Luiz de Miranda
  • há 22 minutos
  • 3 min de leitura

Desde o mito fundador da Umbanda, tendo como personagem o médium Zélio Fernandino de Moraes, muito se questiona sobre ser ou não, a Umbanda, uma religião de matriz africana. Um questionamento que faz muito sentido se observarmos o comportamento ritualístico na Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade: forte influência do espiritismo kardecista, não uso de atabaques, de imolação animal, de bebida alcóolica e de outros utensílios e alimentos comumente usados por religiões de origem africana.

No entanto, é preciso esclarecer que muito antes de Zélio "fundar" a Umbanda, já haviam manifestações de espíritos como Caboclos, Pretos-Velhos, Exus e Pombogiras. E que, obviamente, não recebiam o nome de Umbanda. O que talvez tenha feito Zélio de uma forma colonialista e embranquecida, foi dar um nome à uma religião que agradasse aos interesses das classes dominantes. Afinal, coisas de pretos nunca foram aceitas por essa elite brasileira. E deu certo, Terreiros que tivessem em suas fachadas uma placa que constasse escrito "Tenda Espírita...", não eram importunados pelas autoridades policiais. Aqui, é importante deixar claro, que mesmo sob forte pressão e influência da elite brasileira, devemos sim, respeito ao Sr. Zélio Fernandino de Moraes, por seus seus grandes feitos na Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade. Segue o link para quem se interessar em conhecer essa Casa de espiritismo de Umbanda, que atualmente está localizada na cidade de Cachoeiras de Macacu: https://www.tensp.org/contato

No entanto, séculos antes de todo esse mito fundador, escravizados trazidos de Angola, Congo e Moçambique entre os séculos XVII e XVIII já realizavam seus cultos e ritos fiéis às suas origens e raízes africanas. Esse culto era chamado de Calundu: uma manifestação religiosa praticada nas regiões do Nordeste, mais precisamente na Bahia, e no Sudeste, em Minas Gerais. Há quem já deve ter ouvido de seus parentes mais antigos, a frase: "- tá de calundu?". Essa expressão referia-se à pessoa que estava mal-humorada, ou aparentando estar chateada. No entanto, muitos desconhecem a origem banto dessa palavra que faz parte das antingas linguas centro-africanas quimbundo e quicongo, sendo considerada uma herança dos Espíritos que pertencem a uma lon gínqua ancestralidade. Grupos de escravizados muitas vezes se reuniam em residências de pessoas que buscavam curas de doenças, questões judiciais, falar com um parente já desencarnado, mulheres que buscavam amansar seus maridos, encontrar objetos ou pessoas que desapareceram, conseguir um amor, prosperidade financeira...

Mãe Catharina, uma escravizada vinda de Angola, ficou muito conhecida pelos seus feitos através de suas manifestações espirituais. Da mesma forma, uma preta chamada Magdalena , essa fazia questão de dançar o calundu em praça pública, levantando a ira dos governantes e da elite da época, que acusavam essas danças de diabólicas. Um Padre chamado Francisco Lima, pelos idos de 1702, dizia que o diabo se apoderava dessas mulheres com fúria e visagens fora do natural daqueles que as dançam. E quando acabavam as tais danças, deixavam as mulheres que lhes serviam, por muito tempo desacordadas, sem voz, como se estivessem mortas. Tudo isso acontecia em vários cidades do Estado da Bahia. Há um registro que no Natal de 1707, na Freguesia de Itapagibe, negros e negras se reuniam na casa de Lucrécia Vieira, mulher forra que também realizava grandes curas em troca de alguns réis. Todas essas mulheres e tantas outras adeptas do Calundu, foram denunciadas ao Santo Oficio, tendo um fim que todos nós já sabemos...

O Calundu era um culto praticado por pessoas negras portadoras de saberes e grande capacidade de comunicar-se com Espíritos ancestrais, que incorporavam através de danças sensuais, com o ato da umbigada, chamadas Lundus.

O Calundu sobreviveu até os dias de hoje, não mais como um culto. Mas, como fundamento ancestral das religiões afro-brasileiras.

Não podemos fechar essa publicação sem saudar a importante figura de Luzia Pinta, como uma das grandes precursoras da Umbanda no Brasil. Sobre ela, temos uma publicação neste site : Luzia Pinta - A Avó da Umbanda.









Posts recentes

Ver tudo
CARACTERÍSTICAS DOS FILHOS DE XANGÔ

São considerados os de sangue azul. Monarcas por natureza. Aqueles que se destacam em tudo, pois possuem um grande espírito de liderança e uma personalidade ultra marcante. Detentores de forte dose de

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

SUA FÉ É RESPEITADA?

          No ano de 1990, meses antes de perder sua irmã de 29 anos de idade para um adenocarcinoma no mediastino, o Pai no Santo passa por uma experiência extremamente desagradável e revoltante, que bem retrata o racismo religioso no Brasil. Isso aconteceu no Iaserj, um hospital para os servidores do Estado do Rio de Janeiro. Era por volta das dezesseis horas. Enquanto acompanhante da irmã, ele decide ir tomar café num bar próximo ao hospital e retorna vinte minutos depois. Tempo que foi suficiente para um pastor entrar no quarto e oferecer uma oração. Voltando então do seu café, ele encontra a irmã que já vinha extremamente debilitada por conta da doença, agora, com semblante ainda mais triste e constrangido. Ele então procura levar palavras de consolo e ânimo, ao que ela responde: “_ Meu irmão, por favor, não quero que esse tipo de religioso venha fazer oração pra mim.” Ele de imediato, pergunta:  “_ O que houve?” Ela então relata o ocorrido: “_ Quando você saiu para tomar seu café, um homem de terno se apresentou como pastor da igreja universal e me perguntou se podia fazer uma oração pra mim, Como ele parecia ser uma boa pessoa e foi muito educado, eu disse que sim. Ele fez a oração, pediu pela minha saúde, e em seguida me perguntou se eu aceitava Jesus Cristo como salvador, e eu respondi que sim. Ele então disse que a partir daquele momento eu estava curada. Só que ele então perguntou qual era minha religião, o que eu respondi, que era espírita. Então ele me disse que eu teria que renegar minha religião. Eu disse que não, jamais iria renegar minha fé. Daí ele falou que infelizmente o câncer voltaria e me levaria pros braços da morte. Eu disse a ele que preferia morrer, a ter que conviver com cristãos como ele. Não quero irmão, não quero esse tipo de gente fazendo oração pra mim.”

            Em outra ocasião, anos depois, o racismo e a intolerância religiosa voltam a atacar o Pai no Santo. Dessa vez, no Hospital Regional Darci Vargas, em Rio Bonito. Indo visitar um Filho de Santo na Unidade Intensiva, o Pai no Santo se depara com uma senhora que estava ao lado do leito de seu filho perguntando se podia fazer uma oração. Como o doente estava sob efeito de fortes medicamentos, não tinha condições de responder; o que fez com que a mulher iniciasse a sua oração. Em voz alta e de tom feroz, ela dizia: “ _ Em nome do Senhor Jesus eu expulso os demônios de Pombagira, Exu, Ogum e todos os demônios dos tambores, das encruzilhadas... .” quando então foi interrompida pelo Pai de Santo; gerando na mulher um comportamento agressivo e ameaçador. Dizia ela, agora em tom mais elevado de voz: “_ Você não pode querer calar a voz de uma ministra de Deus. Seus demônios serão jogados por terra... .” quando então o Pai no Santo pediu ao funcionário responsável pela vigilância da Unidade, que retirasse a mulher do ambiente. No que foi prontamente atendido.

            Esses são dois exemplos dos milhares de outros que acontecem todos os dias, atingindo seguidores das religiões de matriz afro-brasileira. E não é à toa, afinal, não faltam umbandistas que se silenciam diante de tais fatos, e como se não bastasse o silêncio, ainda permitem que seguidores de outras religiões lhes imponham sua fé como sendo superior as demais.

            O Umbandista de fato, sabe sua origem, conhece seus Santos, suas rezas, seus cantos e louvores. Não é de hoje que a Umbanda se livrou do peso do sincretismo, dos santos que nunca foram seus, dos ritos e rituais que nunca lhes pertenceram. O Umbandista de fato, sabe a quem recorrer nas horas de aflição e desespero, e não precisa que outro religioso venha em seu socorro para rezar ou orar. Sim, não precisa! Sabe por quê? Porque o Umbandista sabe que aquela pessoa não está oferecendo uma oração para aliviar teu sofrimento. De forma dissimulada, ela quer que o Umbandista negue sua religiosidade, abandone seus Guias e Orixás. Como pode uma pessoa que frequentemente está na igreja ouvindo e dando glórias a voz de um padre ou pastor, e que não mede palavras para demonizar a Umbanda, orar por quem é Umbandista? De que vale uma oração que sai da mesma boca que chama nossos Santos de demônios?

            O Umbandista de fato, sabe o poder de seus Santos, o sangue que derramaram, o suor sofrido e causticante ardendo na pele preta, o fogo impiedoso das fogueiras da inquisição, a lâmina cortante e afiada das guilhotinas. O Umbandista de fato, sabe que seus ancestrais e antepassados morreram para garantir a liberdade aos seus  descendentes. Trazidos à força e amontoados nos navios negreiros, chegam ao Brasil e são obrigados a se batizarem do lado de fora das Igrejas, porque de acordo com as interpretações bíblicas, o preto era um ser sem alma, amaldiçoado...

            Quando um Umbandista respeita outras manifestações religiosas, não quer dizer que ele tenha que se subjugar. Os Santos da Umbanda também têm suas histórias, sua cultura, suas bênçãos e seus poderes.

            Seu Orixá está vivo e pulsante em você. Não deixe que o matem!

                                                                                                   (Luiz de Miranda-Pai no Santo)

  • facebook-square
  • Twitter Square
  • Google Square
bottom of page