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JUREMA (PARTE I)

Foto do escritor: Luiz de Miranda
Luiz de Miranda
há 11 horas
2 min de leitura

A CABOCLA



Mulher de costas incorporada com a Cabocla Jurema

Nessa primeira parte sobre a Jurema, vamos falar da Cabocla. Deixando para as postagens seguintes, a árvore, a bebida e o culto.

Suas incorporações se dão na Umbanda, no Catimbó (Nordeste), Pajelança (Amazônia e Nordeste) e Jurema Sagrada ( Nordeste).

Sua história vem sendo contada por várias gerações, onde se afirma que o Caboclo Tupinambá teria encontrado embaixo de uma árvore por nome jurema, uma criança ainda bebê, tendo por volta seus sete meses de idade. Com ele aprende os segredos das matas e seus fundamentos, torna-se uma exímia caçadora, garantindo fartura em alimentos para sua comunidade. Seu nome se origina da árvore onde ela foi encontrada: jurema, que em tupi significa "espinho fétido" (ju= espinho, rema= cheiro ruim).

Passados alguns anos, conta-se que Jurema se apaixonou por um indígena:

"Segundo a lenda contada nos terreiros, Huáscar era um guerreiro da tribo "Filhos do Sol" (uma clara alusão ao Império Inca) que acabou aprisionado por uma tribo rival na floresta tropical. Jurema, a primeira mulher guerreira de sua tribo, apaixonou-se por ele. Ela o libertou de suas amarras e, durante a fuga, sacrificou a própria vida ao receber uma flechada que era destinada a Huáscar. Devastado e transformado por esse sacrifício amoroso, Huáscar retornou às suas terras andinas, onde mais tarde se tornaria um grande líder."

A Cabocla Jurema e tantas outras Caboclas da Umbanda, simbolizam a mulher indígena, trazendo para os Terreiros a força espiritual , o poder da sua ancestralidade e sua resistência.

Suas cores são preferencialmente o verde (as matas), o vermelho (sangue, vida, coragem) e ainda o branco ( paz).

Suas oferendas são variadas, vão desde o milho, coco, frutas da estação, até peixes assados, moquecas e caldeiradas de frutos do mar. Da mesma forma a bebida, que vai do vinho moscatel licoroso, até bebidas fermentadas à base de milho, abacaxi, caju... Tudo vai depender de que linha é a sua Cabocla.

Saudação: okê (em iorubá: alto, monte, topo) ou seja: és grande, alto e elevado, Caboclo!

Cabocla Jurema: aquela que vem para dar o abraço que cura, o sopro que dissipa os maus pensamentos, o brado que afasta os inimigos. Jurema é mãe zelosa! Okê Jurema!





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SUA FÉ É RESPEITADA?

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          No ano de 1990, meses antes de perder sua irmã de 29 anos de idade para um adenocarcinoma no mediastino, o Pai no Santo passa por uma experiência extremamente desagradável e revoltante, que bem retrata o racismo religioso no Brasil. Isso aconteceu no Iaserj, um hospital para os servidores do Estado do Rio de Janeiro. Era por volta das dezesseis horas. Enquanto acompanhante da irmã, ele decide ir tomar café num bar próximo ao hospital e retorna vinte minutos depois. Tempo que foi suficiente para um pastor entrar no quarto e oferecer uma oração. Voltando então do seu café, ele encontra a irmã que já vinha extremamente debilitada por conta da doença, agora, com semblante ainda mais triste e constrangido. Ele então procura levar palavras de consolo e ânimo, ao que ela responde: “_ Meu irmão, por favor, não quero que esse tipo de religioso venha fazer oração pra mim.” Ele de imediato, pergunta:  “_ O que houve?” Ela então relata o ocorrido: “_ Quando você saiu para tomar seu café, um homem de terno se apresentou como pastor da igreja universal e me perguntou se podia fazer uma oração pra mim, Como ele parecia ser uma boa pessoa e foi muito educado, eu disse que sim. Ele fez a oração, pediu pela minha saúde, e em seguida me perguntou se eu aceitava Jesus Cristo como salvador, e eu respondi que sim. Ele então disse que a partir daquele momento eu estava curada. Só que ele então perguntou qual era minha religião, o que eu respondi, que era espírita. Então ele me disse que eu teria que renegar minha religião. Eu disse que não, jamais iria renegar minha fé. Daí ele falou que infelizmente o câncer voltaria e me levaria pros braços da morte. Eu disse a ele que preferia morrer, a ter que conviver com cristãos como ele. Não quero irmão, não quero esse tipo de gente fazendo oração pra mim.”

            Em outra ocasião, anos depois, o racismo e a intolerância religiosa voltam a atacar o Pai no Santo. Dessa vez, no Hospital Regional Darci Vargas, em Rio Bonito. Indo visitar um Filho de Santo na Unidade Intensiva, o Pai no Santo se depara com uma senhora que estava ao lado do leito de seu filho perguntando se podia fazer uma oração. Como o doente estava sob efeito de fortes medicamentos, não tinha condições de responder; o que fez com que a mulher iniciasse a sua oração. Em voz alta e de tom feroz, ela dizia: “ _ Em nome do Senhor Jesus eu expulso os demônios de Pombagira, Exu, Ogum e todos os demônios dos tambores, das encruzilhadas... .” quando então foi interrompida pelo Pai de Santo; gerando na mulher um comportamento agressivo e ameaçador. Dizia ela, agora em tom mais elevado de voz: “_ Você não pode querer calar a voz de uma ministra de Deus. Seus demônios serão jogados por terra... .” quando então o Pai no Santo pediu ao funcionário responsável pela vigilância da Unidade, que retirasse a mulher do ambiente. No que foi prontamente atendido.

            Esses são dois exemplos dos milhares de outros que acontecem todos os dias, atingindo seguidores das religiões de matriz afro-brasileira. E não é à toa, afinal, não faltam umbandistas que se silenciam diante de tais fatos, e como se não bastasse o silêncio, ainda permitem que seguidores de outras religiões lhes imponham sua fé como sendo superior as demais.

            O Umbandista de fato, sabe sua origem, conhece seus Santos, suas rezas, seus cantos e louvores. Não é de hoje que a Umbanda se livrou do peso do sincretismo, dos santos que nunca foram seus, dos ritos e rituais que nunca lhes pertenceram. O Umbandista de fato, sabe a quem recorrer nas horas de aflição e desespero, e não precisa que outro religioso venha em seu socorro para rezar ou orar. Sim, não precisa! Sabe por quê? Porque o Umbandista sabe que aquela pessoa não está oferecendo uma oração para aliviar teu sofrimento. De forma dissimulada, ela quer que o Umbandista negue sua religiosidade, abandone seus Guias e Orixás. Como pode uma pessoa que frequentemente está na igreja ouvindo e dando glórias a voz de um padre ou pastor, e que não mede palavras para demonizar a Umbanda, orar por quem é Umbandista? De que vale uma oração que sai da mesma boca que chama nossos Santos de demônios?

            O Umbandista de fato, sabe o poder de seus Santos, o sangue que derramaram, o suor sofrido e causticante ardendo na pele preta, o fogo impiedoso das fogueiras da inquisição, a lâmina cortante e afiada das guilhotinas. O Umbandista de fato, sabe que seus ancestrais e antepassados morreram para garantir a liberdade aos seus  descendentes. Trazidos à força e amontoados nos navios negreiros, chegam ao Brasil e são obrigados a se batizarem do lado de fora das Igrejas, porque de acordo com as interpretações bíblicas, o preto era um ser sem alma, amaldiçoado...

            Quando um Umbandista respeita outras manifestações religiosas, não quer dizer que ele tenha que se subjugar. Os Santos da Umbanda também têm suas histórias, sua cultura, suas bênçãos e seus poderes.

            Seu Orixá está vivo e pulsante em você. Não deixe que o matem!

                                                                                                   (Luiz de Miranda-Pai no Santo)

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